Nesta terça-feira, 1º de setembro, tem início o Setembro Amarelo (1), a maior campanha de prevenção ao suicídio do mundo. Criada em 2013 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a iniciativa ganhou força no Brasil a partir de 2014 e foi oficializada pela Lei nº 15.199/2025, que instituiu o mês de conscientização no calendário nacional. O dia 10 de setembro, dentro do Setembro Amarelo (2), é celebrado como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Os números justificam a urgência da pauta. O Brasil registra, em média, 14 mil suicídios por ano — o equivalente a 38 a 40 mortes por dia. Segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina, a taxa de suicídio cresceu 43% em uma década, saltando de 9.454 casos, em 2010, para 13.523, em 2019. Entre os adolescentes, o avanço foi ainda mais alarmante: 81% no mesmo período. Diante desse cenário, o Setembro Amarelo (3) se apresenta como uma convocação para que a sociedade — e, de modo especial, a igreja — abandone o silêncio e aprenda a acolher.
O silêncio que custa vidas dentro das igrejas
Apesar da dimensão do problema, o tema ainda é tratado como tabu em grande parte do meio evangélico. Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que, mesmo com a campanha ganhando as ruas, muitas igrejas mantêm o silêncio sobre o suicídio. Pastores relatam que fiéis em sofrimento são frequentemente orientados apenas a “orar mais”, “jejuar” ou “expulsar o espírito de morte”, sem que haja acolhimento emocional, encaminhamento profissional ou escuta qualificada.

Essa realidade é parte do que o Setembro Amarelo (4) busca combater: o estigma. A campanha é reconhecida mundialmente como a maior iniciativa antiestigma já realizada, justamente porque o preconceito e a desinformação impedem que pessoas em sofrimento busquem ajuda a tempo. Quando a igreja trata a depressão como falta de fé, ela não apenas deixa de ajudar — ela aprofunda a culpa e o isolamento de quem mais precisa de amparo.
Doença psicossomática e problema espiritual: qual é a diferença?
Um dos pontos de maior confusão — e de maior ignorância — dentro do meio evangélico está em distinguir o que é uma doença psicossomática do que é, de fato, um problema espiritual. O Setembro Amarelo (5) convida a igreja a fazer essa diferença com responsabilidade, sem negar nem a dimensão espiritual do ser humano, nem a realidade clínica da mente.
A doença psicossomática é um transtorno real, reconhecido pela medicina, no qual fatores emocionais e psicológicos se manifestam por meio de sintomas físicos e mentais. Ansiedade, depressão, síndrome do pânico, insônia e dores crônicas são exemplos de condições que envolvem o corpo e a mente de forma integrada. Não se trata de “frescura”, “falta de fé” ou “fraqueza espiritual”. Trata-se de um adoecimento que exige avaliação médica, acompanhamento psicológico e, quando necessário, tratamento medicamentoso.

A Associação Brasileira de Psiquiatria alerta que os transtornos mentais estão presentes em 96,8% dos casos de morte por suicídio. Ou seja: na esmagadora maioria das situações, o comportamento suicida tem uma base clínica que precisa ser tratada. Negar essa realidade em nome de uma visão exclusivamente espiritual é uma postura que contraria inclusive o cuidado com a vida, valor central da fé cristã.
Por outro lado, a Bíblia reconhece que o ser humano é integral — corpo, alma e espírito. Existem, sim, conflitos espirituais, lutas interiores, opressões e momentos de angústia que envolvem a dimensão espiritual. O erro não está em reconhecer essa dimensão; está em reduzir toda dor emocional a uma causa espiritual, ignorando a medicina e a psicologia que Deus também concedeu à humanidade como instrumentos de cuidado. O Setembro Amarelo (6) não é inimigo da fé — ele é um chamado para que a igreja una oração e ciência, acolhimento e tratamento.
O perigo de tratar tudo como “espiritual”
Quando um irmão ou irmã chega à igreja relatando pensamentos de morte, a primeira reação de muitos líderes ainda é buscar uma “causa espiritual”. Em parte, isso decorre de uma compreensão equivocada de passagens bíblicas e, em parte, de uma tradição que historicamente negligenciou a saúde mental. O resultado é que pessoas em crise são levadas a sessões de oração e libertação, mas nunca chegam a um psiquiatra ou psicólogo.
Essa abordagem, além de ineficaz, é perigosa. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alerta que o suicídio entre adolescentes e jovens adultos cresceu 38% nas Américas em duas décadas, e que a prevenção passa, necessariamente, pelo acesso a serviços de saúde mental. O Setembro Amarelo (7) reforça exatamente esse ponto: quem está em sofrimento precisa de escuta, de acolhimento e de tratamento adequado — e a igreja pode ser a ponte para isso, e não a barreira.
A especialista em saúde e teologia Karen Bomilcar, em artigo publicado no Servo de Cristo, destaca que a prevenção precisa começar nas famílias, nas escolas e também nas comunidades de fé. Para ela, a igreja tem um papel preventivo fundamental, desde que abandone o julgamento e adote a compaixão. Essa é uma das mensagens centrais do Setembro Amarelo (8): falar sobre o tema salva vidas.
Sinais de alerta que a igreja precisa aprender a reconhecer
O Setembro Amarelo (9) também ensina a igreja a identificar sinais de alerta. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite, frases como “não aguento mais” ou “seria melhor não existir”, despedidas incomuns e doação de pertences são indicadores de que alguém pode estar em crise.
É importante que líderes e membros saibam que falar sobre suicídio não “incentiva” o ato — ao contrário, o diálogo aberto é uma das formas mais eficazes de prevenção. O Setembro Amarelo rompe o mito de que o assunto deve ser evitado. Perguntar diretamente, com amor e sem julgamento, se a pessoa está pensando em se machucar pode ser o primeiro passo para salvar uma vida.
Como a igreja pode agir no Setembro Amarelo
Diante de tudo isso, o que a igreja pode fazer concretamente durante o Setembro Amarelo e ao longo de todo o ano? Em primeiro lugar, abrir espaço para o tema. Cultos, estudos bíblicos e grupos pequenos podem abordar a saúde mental com seriedade, convidando profissionais da área para orientar a comunidade. O Setembro Amarelo é uma oportunidade para a igreja demonstrar que é um lugar seguro, onde ninguém precisa esconder sua dor.
Em segundo lugar, capacitar líderes. Pastores, diáconos, líderes de células e conselheiros precisam de formação mínima para reconhecer sinais de sofrimento e saber encaminhar. O Setembro Amarelo não pede que a igreja vire um consultório, mas que ela seja uma rede de apoio que conecta a pessoa ao tratamento certo.
Em terceiro lugar, acolher sem julgar. Muitas pessoas deixam de buscar ajuda por medo de serem rotuladas como “endemoninhadas” ou “sem fé”. O Setembro Amarelo combate exatamente esse estigma. Uma igreja que acolhe, que escuta e que ora — mas que também orienta a pessoa a procurar um profissional — está cumprindo, de forma plena, o mandamento de amar o próximo como a si mesmo.
Onde buscar ajuda
Se você ou alguém que você conhece está passando por sofrimento emocional, saiba que não está sozinho. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site oficial do CVV. O serviço funciona em todo o Brasil e é uma das principais ferramentas de prevenção apoiadas pelo Setembro Amarelo.
Além disso, procure um psicólogo ou psiquiatra. Tratar a saúde mental não é falta de fé — é cuidado com a vida que Deus nos deu. O Setembro Amarelo (16) nos lembra que a vida é preciosa e que pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
O Setembro Amarelo
O Setembro Amarelo chega, mais uma vez, para convidar a igreja a sair do silêncio. A diferença entre uma doença psicossomática e um problema espiritual não é uma disputa entre medicina e fé — é um convite à integralidade. O ser humano é corpo, alma e espírito, e o cuidado verdadeiro abrange todas essas dimensões.
Que neste Setembro Amarelo as igrejas sejam lugares de acolhimento, onde a oração caminha lado a lado com a ciência, onde o amor substitui o julgamento e onde nenhuma vida é deixada para trás. Falar sobre o tema salva vidas. O Setembro Amarelo existe para nos lembrar disso — todos os dias do ano.
Se precisar de ajuda, ligue 188 (CVV). Você não está sozinho.
Por: Leonardo Souza
Redação Portal do Crente
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