O silêncio que adoece: por que a sexualidade ainda é um tabu dentro das igrejas?

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Falar sobre sexualidade ainda causa desconforto em muitos ambientes cristãos. Basta mencionar o assunto para que alguns mudem de tema, deem risadas constrangidas ou respondam com versículos isolados do contexto, como se conversar sobre esse tema fosse, por si só, algo pecaminoso.

Mas precisamos fazer uma pergunta sincera: se Deus criou o ser humano, criou o casamento e criou a intimidade entre marido e mulher, por que falar sobre isso ainda é visto como algo proibido?
Talvez porque, durante séculos, a sexualidade tenha sido tratada mais pela ótica da culpa do que pela perspectiva da criação divina.

casal vivendo uma sexualidade frustrada pela religiosidade

Quando falamos em sexualidade, não estamos falando apenas do ato sexual. Estamos falando da forma como um casal se olha, se toca, se comunica, se respeita, se admira e investe diariamente na construção da intimidade emocional, física e espiritual.

Sexualidade também é carinho, diálogo, cumplicidade, segurança emocional e conexão.
A Bíblia nunca apresentou a relação conjugal como algo impuro. Pelo contrário.

“Seja bendita a tua fonte, e alegra-te com a mulher da tua mocidade… Embriaga-te sempre com as suas carícias e pelo seu amor sê atraído perpetuamente.” (Provérbios 5:18-19)

Esse texto mostra que Deus não apenas permitiu a intimidade conjugal; Ele a abençoou. O prazer entre marido e mulher não nasceu da cultura moderna. Nasceu no coração do próprio Criador.

Infelizmente, ao longo da história, muitas culturas reduziram a mulher ao papel exclusivo de servir, gerar filhos e atender às necessidades da família. Sua voz, seus desejos e até suas emoções foram silenciados. Esse modelo cultural, muitas vezes, entrou nas comunidades religiosas e acabou sendo confundido com doutrina bíblica.

O resultado foi uma geração que aprendeu a falar sobre pecado, mas não aprendeu a falar sobre intimidade saudável.

Aprendeu a condenar, mas não a orientar.
Aprendeu a reprimir, mas não a cuidar.

Recentemente, após um evento feminino sobre sexualidade, ouvi um relato que me chamou profundamente a atenção. Uma mulher contou que recebeu a seguinte advertência: se
chegasse em casa conversando sobre sexualidade com seu marido, perderia autoridade espiritual para expulsar demônios, principalmente porque seu esposo ocupava um cargo eclesiástico.
Confesso que minha reação foi de espanto.

Desde quando um casal conversar sobre aquilo que Deus criou passou a ser motivo de perda de autoridade espiritual?
A espiritualidade não é medida pelo silêncio sobre temas importantes. Ela é evidenciada por uma vida de santidade, amor, verdade e integridade.
Antes do cargo existe uma pessoa.
Antes do título existe um ser humano.
Antes da função ministerial existe um marido e existe uma esposa.

Pessoas possuem emoções, necessidades afetivas, desejos legítimos, limitações e também precisam cuidar do relacionamento que construíram diante de Deus.
Não existe contradição entre santidade e intimidade conjugal.
O próprio apóstolo Paulo orienta os casais a não negligenciarem essa área da vida:

“O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa ao marido.”
(1 Coríntios 7:3)

Observe que Paulo fala de reciprocidade. Não de imposição.
Fala de cuidado mútuo.
Fala de responsabilidade compartilhada.
Fala de amor.

Casamentos não terminam apenas por grandes traições. Muitos adoecem lentamente pela ausência de diálogo, pela vergonha, pelo medo, pelas crenças distorcidas e pelo silêncio.

Quando a Igreja deixa de ensinar sobre sexualidade à luz das Escrituras, outras vozes ocupam esse espaço. A internet, as redes sociais e conteúdos sem qualquer fundamento passam a ser as principais fontes de aprendizado de muitos casais.

Talvez esteja na hora de voltarmos ao modelo bíblico: um casamento onde existe respeito, amizade, cumplicidade, prazer, serviço mútuo e amor.

Porque uma vida conjugal saudável não enfraquece a espiritualidade.
Ela fortalece a família.
E famílias fortalecidas edificam igrejas mais saudáveis.

Conclusão

Precisamos parar de tratar como tabu aquilo que Deus chamou de bênção.

A sexualidade vivida dentro dos princípios bíblicos não afasta ninguém de Deus; ela aproxima marido e esposa, fortalece o casamento e protege a família.

Que a Igreja continue anunciando a santidade, mas que também ensine sobre intimidade, afeto, comunicação e cuidado conjugal. Casais não precisam apenas aprender a permanecer casados; precisam aprender a viver plenamente o casamento que Deus idealizou.

Afinal, o primeiro relacionamento instituído por Deus não foi uma instituição religiosa, mas uma família. E cuidar dessa família, em todas as suas dimensões, inclusive na sexualidade, também é honrar o Criador.

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