Eles acordam antes do sol para preparar o café, levam e buscam na escola, preparam as refeições, ajudam com a lição de casa e, quando o aperto financeiro aperta ainda mais, abrem a carteira. Não estamos falando dos pais — mas da dedicação dos avós, que se tornaram o verdadeiro pilar de sustentação de milhões de lares brasileiros.
O que antes era visto como uma ajuda pontual e afetiva se transformou em uma engrenagem essencial na sobrevivência das famílias jovens. E os números comprovam: segundo dados divulgados no mapeamento Tsunami Prateado da agência data8, a proporção de brasileiros acima dos 50 anos que cuida de alguém saltou de 37% para 57% entre 2018 e 2026. Quatro em cada dez avós e idosos nessa faixa etária afirmam apoiar financeiramente os filhos — muitas vezes para sustentar diretamente a criação dos netos.
Os dados destacados pela Folha de S.Paulo escancaram uma realidade silenciosa: a rede de apoio formada pelos avós não é mais um complemento — é a estrutura que segura o teto de milhares de famílias.
O novo perfil dos avós brasileiros
Dona Izede Zago, 77 anos, moradora do ABC paulista, criou duas filhas, três netos e ainda hoje prepara as marmitas do neto Theo, de 21 anos. “É vó, vó 24 horas”, resume ela, em depoimento divulgado pela Agência Folhapress. A história de Izede não é exceção. É o retrato de uma geração em que muitos avós, em vez de descansar após uma vida de trabalho, assumiram uma segunda jornada — e, frequentemente, sem qualquer rede de amparo para si mesmos.

A pesquisa da data8, que ouviu 3.298 brasileiros em todo o país entre os dias 8 e 12 de fevereiro de 2026, com margem de erro de 1,7 ponto percentual, também realizou um levantamento qualitativo com 42 famílias no Sudeste. O resultado mostrou uma transformação profunda na rotina das casas brasileiras.
“Aqui no Brasil a gente tem famílias muito aglutinadas, especialmente nas classes mais baixas, e existe um grande desafio: com o envelhecimento populacional, as famílias vão ficando cada vez mais encolhidas”, afirma Lívia Hollerbach, coordenadora da pesquisa.
A coordenadora aponta ainda que a sobrecarga no trabalho dos avós é impulsionada por múltiplos fatores: aumento do custo de vida, longas jornadas de trabalho dos pais, crescimento das famílias monoparentais, separações conjugais e as sucessivas crises econômicas que assolam o país.
Avós como “exército de reserva” da economia
Esse panorama não é exclusivamente brasileiro. No Reino Unido, a contribuição dos avós chega a cerca de 14,6 bilhões de libras (aproximadamente R$ 98,3 bilhões) por ano para apoiar os netos, de acordo com pesquisa da fintech Creditspring, divulgada em maio de 2026. O dinheiro é usado para combustível, comida, roupas, brinquedos e atividades escolares.
A pesquisa, que entrevistou mais de mil avós britânicos, revelou que 70% daqueles que cuidam de crianças acharam o custo dessa rotina mais elevado do que há um ano, e 44% reduziram os próprios gastos pessoais para cobrir os custos com os netos.
“É um número de tirar o fôlego. E ressalta o enorme papel oculto que os avós desempenham em manter as finanças familiares à tona”, afirma Tamsin Powell, especialista em finanças do consumidor da Creditspring.
No Brasil, a realidade é ainda mais desafiadora. O relatório Velhices Periféricas do data8, que analisa o descompasso entre viver, trabalhar, cuidar e sustentar, mostra que sete em cada dez pessoas acima dos 50 anos nas periferias (75%) afirmam ter mais netos e conviver mais com eles. Cerca de 41% vivem do trabalho autônomo, muitas vezes informal. Ou seja: além do tempo dedicado aos netos, esses avós precisam continuar trabalhando para sustentar a si mesmos e aos seus.
O olhar cristão: cuidado mútuo e a honra devida aos avós
Diante desse cenário, a Palavra de Deus nos oferece uma lente poderosa para enxergar essa realidade. Em 1 Timóteo 5:4, o apóstolo Paulo é claro ao orientar o dever de exercer a fé dentro da própria casa.
O texto sagrado não apenas reconhece a importância dos avós no cuidado da família, mas estabelece um princípio de reciprocidade e honra. Se os avós dedicam tempo, recursos e afeto, essa dedicação deve ser retribuída com presença, gratidão e amparo por parte das gerações mais novas.
O pastor e teólogo Russell Shedd costumava ensinar que a família é o primeiro campo de exercício da fé cristã. A Bíblia está repleta de exemplos em que a fé dos avós marcou gerações: Lóide, avó de Timóteo, é citada por Paulo como exemplo de fé não fingida que foi transmitida em casa (2 Timóteo 1:5).
A convivência com os avós, quando vivida com equilíbrio e amor, quebra o isolamento que tanto aflige a sociedade moderna. As crianças que crescem com a presença diária da figura dos avós aprendem lições que nenhuma escola pode ensinar: paciência, gratidão, sabedoria e o valor do tempo dedicado ao outro.
Os benefícios comprovados da convivência entre gerações
Estudos sobre saúde cognitiva e longevidade, como a publicação na revista científica Psychology and Aging, que acompanhou 2.900 idosos, confirmam algo que muitas famílias já intuem: o ato de cuidar dos netos melhora a memória e a fluência verbal, além de proporcionar aos avós um sentido renovado de propósito e pertencimento.
Para as crianças, os benefícios do contato frequente com os avós são igualmente profundos:
- Identidade: Referência clara de história familiar e origens.
- Valores: Transmissão de virtudes, fé e tradições.
- Apoio: Suporte emocional seguro em momentos de crise familiar.
- Educação: Complemento carinhoso na formação do caráter.
Mirian Rodrigues, presidente da ONG CineMaterna, destaca a importância desse vínculo: “As avós são, muitas vezes, um porto seguro para as mães. Celebrar a presença dos avós é reconhecer esse trabalho de cuidado, que tantas vezes acontece de forma silenciosa e pouco valorizada.”
Desafios na rotina e a necessidade de limites
Apesar dos benefícios emocionais inegáveis, especialistas alertam que o apoio fornecido pelos avós precisa ter limites claros. A BBC News Brasil abordou o tema na reportagem “Os avós que não querem ser explorados”, destacando que a escassez de creches, as jornadas longas e a falta de recursos têm transformado a ajuda ocasional em cuidado principal e exaustivo.
Milene Dellatore, especialista em finanças e sócia-diretora do Grupo Mide, observa que muitos avós passaram a ocupar o papel de pilar financeiro, especialmente enquanto os jovens estudam ou tentam se colocar no mercado. No entanto, ela adverte: a ajuda oferecida pelos avós deve ser planejada para não comprometer a própria aposentadoria e saúde dos idosos.
Emma Sterland, diretora de planejamento financeiro no Reino Unido, reforça: “Muitas pessoas agora passam três décadas aposentadas. É muito importante não se comprometer demais com os custos dos netos a ponto de prejudicar o próprio futuro.”
Direitos dos avós que a família precisa conhecer
Muitas famílias e os próprios avós desconhecem os direitos garantidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e pela legislação brasileira quando eles assumem a criação ou o sustento principal dos netos. A lei prevê a possibilidade de:
- Dependência fiscal: Incluir o neto como dependente no Imposto de Renda (sob guarda judicial).
- Abatimentos: Deduzir gastos com educação e saúde dos netos em situações específicas.
- Proteção social: Pleitear pensão por morte ou auxílios específicos via INSS.
- Pensões e Guarda: Pedir pensão alimentícia aos pais da criança caso estes sejam ausentes, bem como requerer a guarda judicial dos netos.
- Decisões tutelares: Participar ativamente das decisões legais sobre a criação da criança quando possuem a guarda.
O conhecimento desses direitos é fundamental para que os avós garantam sua dignidade e não fiquem desprotegidos financeiramente.
Um chamado à Igreja: valorizando os avós no Corpo de Cristo
A igreja local tem um papel crucial nesse cenário. Em vez de isolar as faixas etárias em ministérios totalmente separados, precisamos resgatar o modelo bíblico de integração familiar e intergeracional.
Programas que aproximem jovens e avós, grupos de apoio para avós que criam netos sozinhos e ações comunitárias que aliviem o fardo das famílias são passos práticos e necessários.
O Salmo 71:18 nos lembra dessa preciosa missão:
“Ainda na velhice e quando as cãs aparecerem, ó Deus, não me desampares, até que tenha anunciado a tua força a esta geração, e o teu poder a todos os vindouros.”
Os avós não são apenas um suporte logístico para as famílias jovens. Eles são guardiões da memória, da fé e da sabedoria. Cuidar dos nossos avós, honrá-los e garantir que não sejam sobrecarregados é mais do que uma gentileza familiar — é um mandamento bíblico e um testemunho vivo do amor de Deus através das gerações.
Gostou desta reflexão? Compartilhe este artigo com outros avós e famílias que precisam dessa orientação. Honrar os avós é plantar a semente do respeito que os nossos netos colherão no futuro.
Por Leonardo Souza
Redação Portal do Crente
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