Redação Portal do Crente
Polícia chinesa apreende materiais evangelísticos e força retirada de congregação em Guangzhou; casos de perseguição aos cristãos na China se intensificam, apontam entidades internacionais
A cena ocorreu em pleno setembro, nas imediações de uma escola em Guangzhou, no sul da China: o pastor Lv e duas mulheres cristãs distribuíam leques impressos com mensagens como “Jesus ama você” e “Todos pecaram e precisam se arrepender”. Dias depois, os materiais foram apreendidos, os fiéis foram interrogados e a Guangfu Church, uma igreja doméstica com 20 anos de história, foi obrigada a deixar o imóvel onde celebrava seus cultos. O caso, divulgado pela organização ChinaAid, se somou a um quadro crescente de perseguição aos cristãos na China, movimento que vem sendo monitorado por organismos de direitos humanos ao redor do mundo.

Como começou a operação contra a Guangfu Church
Segundo o relato publicado pela ChinaAid no dia 30 de setembro, a ação começou em 16 de setembro, quando o pastor Lv e duas cristãs distribuíram os leques nas proximidades de uma escola no distrito de Baiyun, em Guangzhou, capital da província de Guangdong. A polícia alegou ter recebido uma denúncia de que os três estariam “promovendo um culto”.
A partir daí, a pressão se ampliou. Policiais levaram o proprietário do imóvel até a residência do pastor e realizaram uma busca. Uma cristã que havia participado da distribuição passou a receber ligações repetidas e foi orientada a levar os leques à delegacia para “investigação e verificação”.
Na mesma manhã, agentes e seguranças locais foram à residência de uma cristã de aproximadamente 60 anos e ao espaço utilizado regularmente pela congregação para suas reuniões. Embora a igreja tivesse um contrato de locação válido, a polícia determinou que o imóvel fosse desocupado até as 17 horas daquele mesmo dia. Os membros retiraram seus pertences naquela tarde e, desde então, a comunidade vive na incerteza sobre onde poderá voltar a se reunir. Os cristãos afirmaram ainda que não receberam documentos ou recibos referentes à apreensão dos materiais.
Interrogatórios, ameaças e a exigência de assinatura
Dois dias depois, em 18 de setembro, os envolvidos compareceram à delegacia de Toupi. Durante um longo interrogatório, dois agentes à paisana questionaram os fiéis sobre informações pessoais, frequência aos cultos, financiamento da congregação e produção de materiais evangelísticos, conforme relato divulgado pela organização de ajuda aos perseguidos.
Os policiais acusaram os cristãos de “perturbar a ordem pública” e praticar “proselitismo ilegal”, advertindo que poderiam sofrer detenção administrativa. Quando uma das mulheres se recusou a assinar o registro policial e uma declaração de compromisso, um agente identificado pelo sobrenome Liao teria ameaçado investigar os filhos dela e as escolas em que estudam.
A tensão só foi encerrada quando a polícia apresentou cópias impressas das mensagens dos leques. A cristã assinou uma declaração reconhecendo que o material continha uma mensagem do Evangelho e foi liberada.
Anos de pressão sobre uma congregação de 20 anos
Fundada pelo pastor Ma Chao em 2005, a Guangfu Church não é estranha à hostilidade estatal. Em outubro de 2018, a congregação já havia perdido outro espaço de reunião após uma intervenção policial, quando as autoridades classificaram o local como “espaço religioso não qualificado”.
De acordo com a ChinaAid, ao longo desses anos a comunidade enfrentou operações policiais, apreensão de bens, restrições impostas ao pastor e até a instalação de câmeras de vigilância na entrada do local de reuniões. Membros também teriam sido pressionados a abandonar a congregação e frequentar igrejas ligadas ao Movimento Patriótico das Três Autonomias, estrutura protestante reconhecida e supervisionada pelo Estado chinês — caminho que as igrejas domésticas, por princípio, recusam, por entenderem que Cristo, e não o governo, é a cabeça da igreja.
Por que as igrejas domésticas vivem à margem da lei na China
Para compreender o episódio, é preciso entender o arcabouço legal chinês. Desde as Revisões das Regulamentações de Assuntos Religiosos, endurecidas em 2018, toda atividade religiosa deve ser registrada junto ao Estado. Comunidades que se recusam a se submeter a esse controle operam na informalidade e ficam sujeitas a vigilância, assédio, multas e detenções.

O movimento cristão não registrado tem raízes históricas profundas. Após a revolução de 1949, as missões protestantes estrangeiras foram expulsas e as igrejas locais foram forçadas a se unir sob a estrutura estatal. Congregações que mantiveram independência passaram a se reunir em casas e espaços privados — o que deu origem ao termo “igreja doméstica”, ou house church.
A escolha dos leques como material evangelístico não foi acidental. Em um ambiente hostil, os cristãos chineses criam estratégias discretas para compartilhar sua fé. O episódio mostra, no entanto, que mesmo expressões simbólicas e culturais do evangelismo vêm sendo alvo de repressão.
Monitoramento internacional aponta endurecimento
O caso de Guangzhou não é isolado. A Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) afirmou em seu relatório anual de 2026 que as autoridades chinesas intensificaram, durante 2025, ações contra líderes protestantes independentes e congregações domésticas. A comissão recomendou novamente que a China seja designada pelos Estados Unidos como “País de Preocupação Particular” por violações sistemáticas, contínuas e graves da liberdade religiosa.
Em junho deste ano, a Anistia Internacional denunicou a detenção de líderes da Igreja da Aliança da Chuva Precoce, uma das maiores igrejas domésticas do país, em operação com mais de cem policiais na província de Sichuan. Em agosto, na mesma linha, a ChinaAid registrou uma invasão à Jie’en Church, em Xangai, que resultou na detenção administrativa de seu pastor.
Veículos especializados brasileiros, como o Guiame e o Comunhão, têm dado ampla cobertura a esses casos, reforçando um alerta: a perseguição aos cristãos na China está longe de ser um episódio pontual — é uma política de estado que se aprofunda ano após ano.
O que os cristãos podem fazer pela igreja perseguida
Para a comunidade evangélica brasileira, o caso de Guangzhou serve de chamado à oração e à intercessão. A Bíblia Sagrada ensina em Hebreus 13:3: “Lembrai-vos dos que estão na prisão, como se presos com eles”. Missionários e organizações de apoio ao corpo de Cristo perseguido destacam que a oração é a principal forma de sustento daqueles que enfrentam a repressão em silêncio.
A Guangfu Church completou 20 anos em 2025. Depois de duas décadas de resistência, a congregação segue sem um endereço — mas, segundo os relatos, sem abandonar a fé. O episódio evidencia que, mesmo diante da apreensão de leques, interrogatórios e ameaças, a mensagem do Evangelho continua circulando, e a perseguição aos cristãos na China não tem conseguido silenciar a igreja doméstica.
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